Ilustração editorial sobre proteção patrimonial no divórcio para médicos com estruturas geométricas em azul e roxo
Planejamento Sucessório

Proteção Patrimonial no Divórcio: Como Médico Protege Seus Bens

Como médico protege patrimônio no divórcio: pacto antenupcial, holding familiar, regimes de bens e mapa decisório por momento. Guia com custo real de cada instrumento.

Ricardo Melo · CEO & Fundador da Credco15 de março de 202612 min de leitura

Em resumo: A proteção patrimonial no divórcio depende do momento da ação: antes do casamento, o pacto antenupcial com separação total de bens é o instrumento mais eficaz. Durante o casamento, a holding familiar protege bens empresariais, mas não substitui o regime de bens. Após o início do divórcio, a transferência de ativos pode ser considerada fraude à execução.

Médico com 12 anos de carreira, consultório próprio, dois imóveis e uma carteira de investimentos relevante tem algo a perder num divórcio litigioso. Dados do CNJ mostram que o Brasil registra mais de 400.000 divórcios por ano — e que processos litigiosos com disputa patrimonial levam em média dois a quatro anos para conclusão, consumindo de 15% a 30% do patrimônio em honorários advocatícios, perícias e custas judiciais.

A boa notícia: proteção patrimonial não é sonegação nem fraude. É planejamento jurídico legítimo, reconhecido pelo Código Civil brasileiro, arts. 1.639 a 1.688. O instrumento certo depende inteiramente do seu momento: antes de casar, durante o casamento ou já em processo de separação. Este guia cobre os quatro instrumentos principais — regime de bens, pacto antenupcial, holding familiar e blindagem do consultório — com custo real de cada um e um mapa decisório objetivo.


Como Funciona a Divisão de Bens no Divórcio #

O regime de bens escolhido no casamento determina quais ativos entram na partilha. No Brasil, o regime padrão — aplicado automaticamente quando não há pacto antenupcial — é a comunhão parcial de bens, disciplinada pelo Código Civil, art. 1.658. Para médicos que casaram sem planejamento prévio, este é o regime mais comum e o que gera mais disputas.

A tabela abaixo compara os quatro regimes reconhecidos pelo Código Civil e o impacto de cada um numa separação:

Regime de BensO que entra na partilhaO que fica foraAplicação automática
Comunhão parcial (padrão)Tudo adquirido durante o casamento (imóveis, investimentos, CNPJ aberto na vigência)Bens pré-nupciais, heranças e doações recebidas individualmenteSim — sem pacto
Comunhão universalTodo o patrimônio, inclusive pré-nupcial e herança futuraBens com cláusula de incomunicabilidadeSó com pacto expresso
Separação totalNenhum bem é partilhadoTodo o patrimônio permanece de cada cônjugeSó com pacto antenupcial
Participação final nos aquestosBens adquiridos onerosamente durante o casamentoBens pré-nupciais, doações e herançaSó com pacto

O que isso significa na prática para médicos:

Um médico que abriu o consultório após o casamento, no regime de comunhão parcial, tem as cotas do consultório como bem comum — passíveis de partilha. Os equipamentos adquiridos durante o casamento, o faturamento acumulado na conta PJ e os imóveis comprados com rendimento do consultório entram na partilha. Os bens adquiridos antes do casamento ficam de fora.

A separação total de bens é o único regime que blinda completamente cada cônjuge. Para chegar a ela após o casamento, é necessária uma ação judicial ou extrajudicial de alteração de regime — processo mais complexo e restrito do que o pacto antenupcial feito antes.


Pacto Antenupcial — O Que É e Como Fazer #

O pacto antenupcial é o contrato firmado antes do casamento para estabelecer um regime de bens diferente do padrão legal. Para médicos com patrimônio pré-existente ou carreira consolidada, é o instrumento preventivo mais eficaz e com melhor relação custo-benefício disponível.

Quem pode fazer e quando #

Qualquer pessoa maior de 18 anos pode firmar pacto antenupcial. Menores de 18 que tenham autorização dos pais também podem. O único requisito temporal é que o pacto seja celebrado antes da celebração do casamento — um dia antes é válido; um dia depois, não.

Custo real do pacto antenupcial #

ItemCusto estimado
Escritura pública no cartório de notasR$ 500 – R$ 2.000
Registro em cartório (obrigatório para validade)R$ 200 – R$ 500
Honorários do advogado (elaboração e revisão)R$ 1.500 – R$ 5.000
TotalR$ 2.200 – R$ 7.500

Fonte: ANOREG — Tabela de Custas Cartorárias 2026

Para efeito de comparação: um divórcio litigioso com disputa patrimonial custa entre R$ 20.000 e R$ 150.000 em honorários advocatícios, além de durar anos. O pacto antenupcial é o investimento preventivo mais barato da lista.

O que o pacto pode estipular #

O pacto antenupcial com separação total de bens estabelece que cada cônjuge mantém a propriedade exclusiva de tudo que possui antes e durante o casamento. Além disso, o pacto pode incluir:

  • Cláusula de incomunicabilidade de heranças e doações futuras
  • Regras para divisão de dívidas (cada cônjuge responde pelas suas)
  • Disposições sobre imóveis adquiridos em conjunto (percentuais de propriedade)
  • Proteção da participação societária em clínicas e empresas médicas

O que o pacto NÃO pode fazer #

O pacto antenupcial não pode violar os direitos irrenunciáveis do cônjuge previstos em lei:

  • Não pode suprimir alimentos — o dever de mútua assistência existe independentemente do regime
  • Não pode suprimir direitos sobre a meação de bens comuns adquiridos mediante esforço comprovado de ambos os cônjuges em regime de separação (Súmula 377 do STF é relevante aqui)
  • Não pode conter disposições imorais ou ilegais
  • Não pode prejudicar direitos de terceiros credores anteriores ao casamento

Holding Familiar Protege os Bens no Divórcio? #

A holding familiar é uma pessoa jurídica constituída para deter e administrar o patrimônio familiar. É a ferramenta mais eficaz para proteção patrimonial em vida — mas sua relação com o divórcio tem nuances importantes que a maioria dos médicos desconhece.

O que a holding protege #

A holding protege bens empresariais de ações externas: credores do sócio não alcançam facilmente os bens dentro de uma holding devidamente constituída. Imóveis dentro da holding não entram em processos de execução contra o sócio pessoa física. A separação entre patrimônio pessoal e empresarial é real e juridicamente sólida.

O que a holding NÃO protege no divórcio #

No divórcio, as cotas da holding são patrimônio do sócio — e, portanto, sujeitas à partilha conforme o regime de bens. Se o médico aportou imóveis na holding durante o casamento em regime de comunhão parcial, as cotas correspondentes são bens comuns. O cônjuge tem direito à metade das cotas adquiridas durante o casamento.

InstrumentoProtege de credores?Protege no divórcio?Como funciona
Holding familiarSim — bens da PJ não respondem por dívidas do sócio PFParcialmente — as cotas são partilháveisBens ficam na pessoa jurídica; divórcio discute as cotas
Pacto antenupcial (sep. total)Não — não protege de credoresSim — patrimônio não é partilhadoCada cônjuge mantém seus bens integralmente
Combinação holding + pactoSimSimProteção máxima nos dois eixos

A conclusão objetiva: holding e pacto antenupcial protegem riscos diferentes e são complementares, não alternativos. O médico que quer proteção máxima constitui a holding para separar patrimônio pessoal de empresarial — e firma o pacto antenupcial para garantir que as cotas da holding não sejam partilhadas num divórcio futuro.

Para entender os custos completos de constituir uma holding, veja o guia quanto custa uma holding familiar em 2026.


Bens do Consultório Médico no Divórcio — Regras Especiais #

O consultório médico tem regras específicas que diferem da propriedade imobiliária ou dos investimentos financeiros. Entender o que entra e o que fica fora da partilha é fundamental para qualquer médico com CNPJ ativo.

O que entra na partilha (regime de comunhão parcial) #

  • Cotas ou ações da empresa médica constituída durante o casamento — são bens comuns
  • Equipamentos médicos adquiridos durante o casamento com recurso comum
  • Fundo de comércio (clientela, localização, reputação do consultório) — é discutível e frequentemente objeto de perícia
  • Saldo em conta corrente PJ com origem em rendimentos gerados durante o casamento

O que fica fora da partilha #

  • CNPJ aberto antes do casamento — a sociedade em si não é comunicada ao casamento; apenas os lucros reinvestidos durante a vigência do casamento podem ser disputados
  • Equipamentos adquiridos com recursos exclusivamente pré-nupciais
  • Participação societária em clínica constituída antes do casamento — a parte do capital pré-matrimonial não entra; apenas a valorização e os aportes feitos durante o casamento são passíveis de discussão
  • Honorários já recebidos e gastos — rendimento do trabalho pessoal não é bem comum; o que foi poupado e transformado em bem durante o casamento, sim

A questão do fundo de comércio #

O fundo de comércio médico — a carteira de pacientes, a localização do consultório, a reputação construída — é o elemento mais disputado e de mais difícil valoração. Tribunais divergem sobre se é partilhável. Juízes frequentemente determinam perícias que custam de R$ 15.000 a R$ 60.000 e cujos laudos podem valorar o consultório de formas completamente diferentes.

A forma mais eficaz de proteger o fundo de comércio é constituí-lo dentro de uma holding desde o início — e firmar pacto antenupcial de separação total antes do casamento. Com os dois instrumentos em vigor, o cônjuge não tem direito a cotas adquiridas antes do casamento e as cotas adquiridas durante o casamento ficam fora da partilha por força do pacto.


Mapa Decisório — Qual Instrumento Usar Conforme Seu Momento #

A escolha do instrumento certo depende do momento em que você está. Agir antes é sempre mais barato, mais simples e mais eficaz. A tabela abaixo é o mapa decisório objetivo:

MomentoSituaçãoInstrumento prioritárioCusto estimadoPrazo de implementação
Antes de casarPatrimônio pré-existente (imóveis, consultório, investimentos)Pacto antenupcial com separação totalR$ 2.200 – R$ 7.5001–2 semanas
Antes de casarSem patrimônio relevante aindaComunhão parcial padrão + revisão em 5 anosZero
Já casado — início do casamentoPatrimônio crescendo, sem conflito conjugalHolding familiar + avaliação de alteração de regimeR$ 12.000 – R$ 30.00060–120 dias
Já casado — casamento estávelConsultório e imóveis consolidadosHolding familiar para separar PJ de PF + testamento complementarR$ 12.000 – R$ 30.00060–120 dias
Já casado — deterioração conjugalSinais de conflito, mas sem ação judicialOrganização documental + consultoria jurídica preventivaR$ 3.000 – R$ 8.000Imediato
Em processo de divórcioAção judicial em andamentoDefesa jurídica especializada — nenhuma transferência de bensR$ 15.000 – R$ 80.000 (honorários)

A regra mais importante: após o início formal do processo de divórcio — seja com a petição inicial, seja com a separação de corpos registrada — qualquer transferência de bens é passível de ser anulada por fraude à execução ou fraude contra credores, prevista nos arts. 158–165 do Código Civil. Constituir holding, transferir imóveis ou movimentar ativos nesse momento não protege — agrava a situação.

Alteração de regime de bens durante o casamento #

É possível alterar o regime de bens durante o casamento, mas com restrições importantes:

  • Exige autorização judicial mediante pedido conjunto dos cônjuges
  • O juiz avalia se há prejuízo a credores ou a terceiros
  • Não tem efeito retroativo — bens adquiridos no regime anterior permanecem sob as regras antigas
  • O processo leva de 6 a 18 meses e custa entre R$ 5.000 e R$ 15.000 em honorários

A alteração de regime é uma opção real para casais em que ambos concordam e não há credores expostos. Mas é infinitamente mais simples e segura do que um processo litigioso futuro.


Erros Que Custam Caro no Divórcio #

A maioria das perdas patrimoniais em divórcios não resulta da lei — resulta de erros evitáveis cometidos antes ou durante o processo. Estes são os seis mais frequentes entre médicos:

  1. Misturar patrimônio pessoal e empresarial. Usar a conta corrente PJ para despesas pessoais, ou vice-versa, cria uma zona cinzenta que favorece o cônjuge em disputas. O perito judicial vai analisar todos os extratos e pode considerar gastos pessoais como "retirada do patrimônio comum". A separação rigorosa de contas — desde o início — é a proteção mais simples e barata.

  2. Abrir o CNPJ do consultório após o casamento sem planejamento. A empresa aberta durante o casamento em regime de comunhão parcial é bem comum. O médico que não firmou pacto antenupcial e abriu o consultório após o casamento tem 50% das cotas do consultório expostas à partilha. A solução retroativa — holding ou alteração de regime — é muito mais cara do que o pacto teria sido antes.

  3. Transferir bens logo que a situação conjugal deteriora. É exatamente o contrário do que parece ser a solução óbvia. Transferências de imóveis, cotas ou ativos financeiros após o início do conflito conjugal são frequentemente anuladas pela Justiça como fraude. O cônjuge tem ação pauliana para desfazer transferências feitas nos últimos dois anos antes do ajuizamento do divórcio.

  4. Não documentar a origem dos bens pré-nupciais. No regime de comunhão parcial, bens pré-matrimoniais ficam de fora da partilha — mas o ônus da prova é de quem alega. Sem documentação (escritura, contrato de compra, extrato bancário da época), o bem pode ser tratado como comum. Guardar documentação da origem de cada bem pré-matrimonial é uma tarefa simples com valor enorme.

  5. Ignorar o impacto do planejamento sucessório sobre o divórcio. Doações feitas a filhos durante o casamento, por exemplo, podem ser revistas no divórcio se feitas sem o consentimento do cônjuge no regime de comunhão parcial. O que parece planejamento sucessório legítimo pode virar prova de dilapidação de patrimônio comum no processo de divórcio.

  6. Não consultar um advogado especialista antes de assinar qualquer acordo. Acordos de separação firmados "amigavelmente" sem assessoria jurídica independente para cada cônjuge frequentemente contêm renúncias que a parte não percebeu. O custo de um advogado em uma separação amigável — R$ 3.000 a R$ 10.000 — é um seguro contra acordos que prejudicam por anos.


Perguntas Frequentes #

Bens adquiridos antes do casamento entram na divisão? #

No regime de comunhão parcial (o padrão legal), bens pré-matrimoniais são de cada cônjuge. Apenas os adquiridos durante o casamento entram na partilha. A ressalva importante: o cônjuge precisa provar a origem pré-matrimonial do bem — sem documentação, o juiz pode presumir que o bem foi adquirido durante o casamento. Mantenha escrituras, contratos e extratos bancários que comprovem a data de aquisição de cada ativo relevante.

Posso fazer pacto antenupcial depois de casado? #

Não — o pacto antenupcial só pode ser feito antes do casamento. Após a celebração, o instrumento disponível é a alteração de regime de bens por autorização judicial, que exige pedido conjunto, aprovação do juiz e não tem efeito retroativo sobre bens já adquiridos. O processo leva entre 6 e 18 meses e custa de R$ 5.000 a R$ 15.000. É uma opção real para casais que concordam e não têm credores expostos — mas é muito mais complexa do que o pacto preventivo teria sido.

A holding familiar me protege se eu já estiver em processo de divórcio? #

Não. Transferências de bens após o início formal do processo de divórcio podem ser anuladas por fraude à execução, com base nos arts. 158–165 do Código Civil. A holding familiar é um instrumento preventivo — eficaz quando constituída durante o casamento estável, sem conflito conjugal instalado. Constituir uma holding ou transferir imóveis para ela durante o processo de divórcio agrava a situação jurídica e expõe o médico a sanções adicionais. Nesse momento, o instrumento adequado é a defesa jurídica especializada, não a reorganização patrimonial.

Herança recebida durante o casamento entra na divisão? #

No regime de comunhão parcial, herança é excluída da partilha, desde que não seja "comunicada" ao patrimônio comum — ou seja, desde que não seja misturada com bens adquiridos pelo casal. Herança recebida e mantida em conta separada, com documentação clara de origem, fica fora da partilha. Herança recebida e usada para comprar imóvel em nome do casal ou misturada em conta corrente conjunta pode perder essa proteção. A documentação da origem é fundamental.

Quanto custa um pacto antenupcial? #

O pacto antenupcial custa entre R$ 500 e R$ 2.000 no cartório de notas, mais R$ 200 a R$ 500 de registro, mais honorários do advogado (R$ 1.500 a R$ 5.000 para elaboração e revisão). O total fica entre R$ 2.200 e R$ 7.500. É o investimento preventivo mais barato comparado ao custo de um divórcio litigioso — que começa em R$ 20.000 e pode chegar a R$ 150.000 em honorários, além de anos de processo e desgaste emocional.


Conclusão #

A proteção patrimonial no divórcio não é improviso — é planejamento jurídico feito no momento certo. O instrumento mais eficaz é sempre o preventivo: o pacto antenupcial com separação total de bens, feito antes do casamento, custa menos de R$ 8.000 e blinda completamente o patrimônio pré-existente e o que será construído durante o casamento.

Para médicos já casados, a holding familiar é o segundo melhor instrumento — não porque protege diretamente no divórcio, mas porque separa patrimônio pessoal de empresarial, protege de credores e organiza a sucessão. Combinada com uma alteração de regime negociada com o cônjuge, representa a estratégia mais sólida disponível. Para aprofundar o entendimento sobre como a holding funciona na prática, leia o guia completo sobre holding familiar e o artigo sobre planejamento sucessório.

O erro mais caro é agir tarde: após o início do conflito conjugal, as opções se reduzem drasticamente e o custo jurídico multiplica. Para médicos que ainda estão no momento preventivo, o primeiro passo é simples — uma consulta com especialista para mapear o patrimônio atual e escolher o instrumento adequado.

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Sobre o autor: Ricardo Melo é fundador e CEO da Credco, boutique de construção patrimonial que já alavancou mais de R$ 250 milhões em patrimônio para mais de 500 profissionais de alta renda. Especialista em consórcio estratégico, financiamento inteligente e engenharia patrimonial.

Disclaimer: Este conteúdo tem caráter educacional e não constitui consultoria jurídica ou tributária individualizada. A elaboração de pacto antenupcial, holding familiar e estratégias de proteção patrimonial exige análise específica por advogado especializado. Valores de custas cartorárias são estimados com base nas tabelas vigentes e podem variar conforme estado, cartório e complexidade do caso.

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